O mateiro Zacarias Pereira nasceu e se criou na roça, às margens do Rio Parauapebas no lugar chamado Preguiça, distante dez quilômetros da cidade de Canaã dos Carajás.. Nos seus 56 anos de idade, vida sofrida, de dureza, sempre trabalhando de sol a sol num pedaço de terra que possui, não sabe o que é feriado, guarda apenas os dias santos e domingos, porque teme os castigos de quem não obedece as determinações da Santa Madre Igreja. Zacarias vive cm sua mulher Carmélia, faz 35 anos de feliz casamento. Os cinco filhos que tiveram estão criados, vivendo longe de casa, mas sempre mandando notícias. Com sua idade, pintando cabelos brancos, Zacarias tem muita experiência das coisas da terra que o viu nascer, além de histórias para contar, referentes aos enfrentamentos que passou diante de figuras conhecidas pelo povo, a exemplo de Matinta Perêra, Buiuna, Mampinguarí, Nego D´ água, Boto, Chibuí e outros. Diante de mim, quer passar alguns acontecimentos, sem acanhamento de afirmar: tudo o que conta é verdade. Não é homem de inventar potocas, de prova para comprovar, está sua mulher Carmélia. Vale lembrar o que passaram os dois ao toparem com a danada de Matinta Perêra, numa noite clara de lua cheia. Estavam nessa, entretidos em fisgar pintados, mandis, ou tucunarés, nas águas claras do Rio Parauapebas,, quando, de repente ouviram um assobio fino, prolongado, forte, parecendo uma canção triste e fúnebre, que faz qualquer vivente ficar de cabelos em pé Os conhecimentos de Zacarias a respeito de assombrações das matas, o fez identificar a visagem, alertando a mulher do que poderia acontecer: - Vamos ficar preparados. Os assobios são de Matinta Perêra rodeando nós, procurando vítimas que tenham caído em pecado mortal de relação intima. A claridade da noite e o foco de luz de uma lanterna de três elementos, usada por Zacarias em suas pescarias, deu para vislumbrar de longe a figura de uma mulher magra, esquelética, cabelos pretos caídos até à cintura, braços levantados e assobiando sem parar. A medrosa D. Carmélia parecia ter sofrido um ataque de malária, pois, tremia o corpo todo, agarrada à cintura de Zacraias, o medo era tanto que ficou entrecortando palavras: - Fa... fa...ça alguma coisa meu ma...ma..ri...do Za...za...carias. De peito estufado, orgulhoso da coragem que a mulher depositava nele, Zacarias cuspiu grosso mel de fumo que mascava e disse, seguro de si: -Não se aperrei, minha mulher, eu tenho o remédio capaz de espantar essa traste ruim. E arrancou do bornal um rolo de meio metro de fumo grosso e jogou em direção de Matinta Perêra. Foi o bastante. Em seguida ouviu-se um forte assobio, um vento quente soprando, formando um redemoinho, e o vulto de Matinta Perêra desaparecendo na escuridão das matas. Um cheiro diferente exalou ao redor de Zacarias e Carmélia. Foi quando ele percebeu que a pobre de sua mulher não se conteve, sujando a roupa e se mijando todinha. É isso mesmo. Não é querendo desfazer, mas é verdade. Mulher não tem a coragem de cabra macho igual a Zacarias. - Tamo pra vê. Afirma ele.
Home
Data de criação : 07/08/23 Última atualização : 11/10/17 12:26 / 1 Artigos publicados